terça-feira, 17 de julho de 2012

Dois Mundos


Acordou com a cabeça latejando, os olhos mal conseguiam se abrir, um gosto amargo na boca. Sensações corriqueiras nesses últimos tempos. Seu rosto de menino, escondido por trás das lembranças da madrugada, mal justifica seus vinte poucos anos. Seu corpo recém formado exibe a exuberância das formas de quem sempre amou os esportes e a vida ao ar livre. Ao seu lado, na cama, uma menina, parecida nas formas e nos sonhos lentamente corroídos pela madrugada alcalina, ela dorme, sem nome, sem roupa, sem lembranças de um ontem que justifique esse agora, sua beleza quase infantil fica transparente aos pensamentos do rapaz, que busca longe as razões para o que se tornou sua vida, seu olhar atravessa os objetos, atravessa paredes, atravessa o tempo.
Agora ele está sobre uma pedra, o lugar é paradisíaco, como muitos na região onde nasceu e cresceu, o rio, de água cristalina, serpenteia por entre as pedras e de súbito despenca, deslizando por sobre uma laje de pedra, para, em seguida, acalmar-se na mansidão de um profundo poço onde o menino e seu amigo ensaiam o primeiro e corajoso salto do alto da pedra. O sol irrompe por entre a copa das árvores, em raios que lembram holofotes a iluminar um palco, o que faz eles se sentirem como astros de algum espetáculo circense daqueles que costuma visitar a cidade. A água fria denuncia que se trata de uma região serrana, o céu azul torna o sorriso dos meninos mais luminosos, o silêncio da floresta recebe com um abraço maternal as gargalhadas de pura felicidade da dupla.
Trata-se de um “debut”, é a primeira vez que ele vai dormir longe da família, na casa dos avós de seu inseparável amigo, a independência de se embrenhar na mata, de se despir e se atirar na água do alto de uma pedra, situação inimaginável para um menino criado com cuidado e rigidez. Um ritual de passagem da infância das brincadeiras inocentes e vigiadas, para algo selvagem e gigantesco, que ainda não tinha nome. Seu mundo estava maior, seu horizonte mais distante, como da vez que descobriu que era capaz de ir sozinho até a casa de sua avó, numa fantástica jornada de quinhentos metros.