Acordou com a cabeça latejando, os olhos mal conseguiam se
abrir, um gosto amargo na boca. Sensações corriqueiras nesses últimos tempos.
Seu rosto de menino, escondido por trás das lembranças da madrugada, mal
justifica seus vinte poucos anos. Seu corpo recém formado exibe a exuberância
das formas de quem sempre amou os esportes e a vida ao ar livre. Ao seu lado,
na cama, uma menina, parecida nas formas e nos sonhos lentamente corroídos pela
madrugada alcalina, ela dorme, sem nome, sem roupa, sem lembranças de um ontem
que justifique esse agora, sua beleza quase infantil fica transparente aos
pensamentos do rapaz, que busca longe as razões para o que se tornou sua vida,
seu olhar atravessa os objetos, atravessa paredes, atravessa o tempo.
Agora ele está sobre uma pedra, o lugar é paradisíaco, como
muitos na região onde nasceu e cresceu, o rio, de água cristalina, serpenteia
por entre as pedras e de súbito despenca, deslizando por sobre uma laje de
pedra, para, em seguida, acalmar-se na mansidão de um profundo poço onde o
menino e seu amigo ensaiam o primeiro e corajoso salto do alto da pedra. O sol
irrompe por entre a copa das árvores, em raios que lembram holofotes a iluminar
um palco, o que faz eles se sentirem como astros de algum espetáculo circense
daqueles que costuma visitar a cidade. A água fria denuncia que se trata de uma
região serrana, o céu azul torna o sorriso dos meninos mais luminosos, o
silêncio da floresta recebe com um abraço maternal as gargalhadas de pura
felicidade da dupla.
Trata-se de um “debut”, é a primeira vez que ele vai dormir
longe da família, na casa dos avós de seu inseparável amigo, a independência de
se embrenhar na mata, de se despir e se atirar na água do alto de uma pedra,
situação inimaginável para um menino criado com cuidado e rigidez. Um ritual de
passagem da infância das brincadeiras inocentes e vigiadas, para algo selvagem
e gigantesco, que ainda não tinha nome. Seu mundo estava maior, seu horizonte
mais distante, como da vez que descobriu que era capaz de ir sozinho até a casa
de sua avó, numa fantástica jornada de quinhentos metros.
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