Lanço-me, o corpo, de encontro ao vento.
Atiro-me em vôo, sem peso é o pranto.
Da alma, da matéria, do peito, me arranco.
Mostro-me, cerne, do avesso, cru, cinzento.
Entrego-me em vísceras, coração purulento.
Rasgo-me as chagas, Rembrandt, carne em cancro.
No absurdo das entranhas, cubro-me no Teu manto.
Esvaio-me em sangue, lágrimas, um abandono lento.
Recolho no chão, pedaços de um ego dilacerado.
Fragmentos fétidos de um Narciso resignado.
Mosaico de vísceras púrpuras, à espera do chacal.
Desfigurado ser, humano, desnudo, animal.
Fui, em vida, poeta, pateta, por um dia, talvez, amado.
Regozijo-me enfim, deste, no suspiro final.
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