quinta-feira, 5 de abril de 2012

Caçador de Palavras


Sou caçador de palavras
Tem dias que as caço com atiradeira
Tem dias que uso metralhadora
Na primavera as persigo como borboletas
No inverno uso enxada para encontrá-las
Feito tamanduá, minha língua já foi armadilha
Já pesquei palavra em meio a furacão
Já mergulhei com arpão pra caçar rima pra Netuno

Mesmo devidamente capturadas
Costumam escapar entre os dedos
Deixando a caneta suspensa no ar
Cheia da tinta e vazia de inspiração.

Querer


Quero sentir o que você sente
Quero um futuro aqui presente
Quero inventar o nosso passado
Quero estar do teu lado
Quero sentir o teu corpo
Quero beber do teu copo
Quero dançar teus gemidos
Quero lamber teu ouvido
Quero acender tua chama
Quero quebrar tua cama
Quero te beijar de manhã
Quero te querer amanhã

10/01/1994

Colibri

A manhã bate às portas da cidade,
a noite deixa como lembrança
a ressaca, uma garrafa vazia,
e um corpo de mulher, vazio,
deitada em minha cama, despetalada...
Flor violentada, sem violência.
Algo de meu se perdeu nessa noite,
não era apenas isso que eu queria...

30/09/1989

Apenas Engano


Na televisão um filme desinteressante
No copo um gole de uísque desinteressante
Na mente um gole de lembrança enfumaçada
No cinzeiro nada, eu não fumo
A pizza semi-pronta me espera no forno
A mulher semi-nua me espera na cama
A torneira goteja esquecida no banheiro
O relógio, na parede, me lembra das horas
A janela aberta me mostra a cidade
A porta fechada me esconde da verdade
De algum apartamento cheirando a mofo,
Alguém se atreve a me ligar:
Apenas engano...

O Rock Está Morto


O Rock está morto, insisto em acender velas.
O fantasma gordo de Elvis.
Jagger, vampiro, sugando vida das platéias
Dinossauros renascem nas bilheterias
Príncipe das trevas, palhaço da TV

Felizes os que morreram de overdose.
Heróis na Terra do Nunca do Rock.
Lápides que não criam limbo.
Jim,
Janis e
Jimmy Hendrix,
Amém.

Oi


Foi apenas o que ela disse
Como quem rasga as páginas de um livro
Foi uma ponta de esperança
para mim que tento resgatar uma história
foi como tudo começou, certo dia
com olhares de quem já sabia o enredo
Saudação que ecoa derradeira
Entre os passos de dois indivíduos
Cujos caminhos inevitavelmente se afastam

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Efêmero


Essa música me faz tão bem,
Que perdôo meus inimigos por quase um segundo.
O piano me pega e me leva pelo mundo.
Suas notas são asas nessa viagem.
Quem é você pianista, que me ludibria com seu talento?
Onde se esconde a razão entre essas notas?
Meus ouvidos são mensageiros do improvável.
O que há de provável que não tenha sido desmentido?
O que há de errado em ser desmentido?
Por que desmentir a música?
Pra que provar a arte?
Por que duvidar da nossa efemeridade?