sexta-feira, 29 de junho de 2012

Entrega


Passeio pelos teus cantos, encantos,
penetro teu ser, por cima, vagina
sal, ostras, bocas
te sopro de volta pro mar, paladar
sereia, na areia,
o vento e o tempo
te levam pra longe,
te busco, te trago, te carrego
te pego, te abraço, te esfrego,
e por inteiro, me entrego

terça-feira, 17 de abril de 2012

Espólio de Palavras


Palavras emprestadas desviadas roubadas
Inspiração furtiva procurada bandida
Idéias compartilhadas recicladas trocadas
espólio gramatical
Contravenção da alma
Mercado de pulgas do ser

Bramindo em Pincel


Toulouse-Lautrec
vida amores bordel
mulheres cheiro de mel
Van Gogh
delírios pena papel
Corvos girassóis e o céu
Claude Monet
Cavalete barba chapéu
Ninféias mulheres de véu
Gênios bramindo em pincel
Hóspedes, minh’alma é hotel

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Nova Friburgo 12 de Janeiro de 2011


E a chuva veio tirar a maquiagem da cidade,
afloraram as chagas de uma tragédia cotidiana.
Carne arrancada dos ossos pelas pedras
que rolaram de suas paisagens de cartão postal.
Vidas sepultadas sob a lama dos excluídos,
histórias arrastadas pela correnteza do abandono.
Terra mãe que, de tudo, sempre nos deu,
terra madrasta que de muitos tudo tirou.

domingo, 8 de abril de 2012

Algum Livro


Quem me dera
Que as respostas estivessem
Na última página deste livro,
a  verdade estivesse no quarto capítulo,
a contracapa contivesse a explicação pra tudo,
a capa fosse um espelho,
e eu não fosse o vilão da história.

Dormente


Meus livros adormecidos na estante
Meus poemas alimentam traças
Minha arquitetura alimenta sonhos
Minhas idéias derretem no uísque
Minhas roupas novas cheiram a cerveja de ontem
Meus olhos se refletem num espelho antigo

O chão da casa está empoeirado
Não posso andar descalço
As janelas estão embaçadas
Não consigo ver a paisagem
Preciso fazer a barba
Ela adorou meu corte de cabelo

Como é bela e brilhante a simplicidade!
Cinco gemas
Quatro claras em neve
Sal a gosto...

2007

Quero Mundo


Eu quero uma janela
que me permita ver o mundo
Mundo estático como um quadro,
pintado para preencher alguma parede vazia.

Eu quero uma porta
que me permita receber o mundo.
Mas que se feche pra mim,
toda vez que eu tente fugir.

Eu quero quatro paredes,
que me permitam esquecer o mundo.
E que o mundo se esqueça de mim.
Anônima alma de coração pequeno.

Eu quero uma cama,
que me permita sonhar o mundo.
Que me aqueça da frieza do inverno.
Que me proteja da aspereza do verão.

Eu quero uma televisão,
Que me permita inventar o mundo.
Janela das ilusões fantásticas.
Pintadas pra preencher os espaços da vida.

Eu quero um tapete,
que me permita ocultar as cinzas do mundo.
Sob as manchas de emoções passadas,
que desapareceram de minha memória.

Eu quero um abajur,
Que me permita enxergar um pedaço do mundo,
e que torne obscuro e sem valor,
tudo aquilo que não consigo ver.

Eu quero um relógio,
que me permita despertar o mundo.
Companheiro nas noites sem companhia.
Inquisidor me sentenciando a cada segundo.

Eu quero um mundo,
que me permita arrancar os quadros da parede,
e atira-los pela janela.
Um mundo sem portas, nem fechaduras trancadas.
Sem fugas.

Adeus mundo de quatro paredes.
Quero ouvi-lo coração anônimo.
Quero sonhar com você mundo terno.
Adeus inventores de espaços vazios.