quarta-feira, 12 de junho de 2013

Água Doce























Entrego-te a parte de mim que lhe cabe
Beba a água que lhe ofereço, sem medo.
Veja, ela não é cristalina, é a água turva dos anos,
É a água dos rios ancestrais, brotados nas planícies
Dos tenros anos, não traz em si o frescor evidente,
Que inocentes mãos levavam à boca.
Traz em si a batalha diária de continuar fluindo,
A esperança de ainda ser capaz de abrandar a sede
De seus ávidos lábios, temperar a calidez do seu corpo.

Não, eu nunca fui oceano, imponente, exuberante,
Não, eu nunca traria amargor aos seus lábios,
Nunca me confundiria às lágrimas em seu rosto.
Corro sereno entre as pedras do rio do destino,
Desviando-me, deixando minhas marcas.
Carregando em mim a mineral essência da vida.

Sente-se à margem dos meus dias,
Escute a música das minhas horas,
Enxergue arte nas cores que busco refletir,
Molhe os pés, refresque-se,
Levante-se e vá embora,
Levando consigo a poesia dos tempos porvindos.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O Começo de Tudo














Em si carregas
A soma.
Duas histórias.
Metade és tu,
A outra metade, em ti,
Acolhes.
Divide-se a alma,
O corpo prolifera,
A vida se espalha,
Passos em outras direções.
No mesmo compasso, corações.
E o mundo se faz
Da soma,
Que se divide,
E se espalha.
E no começo de tudo:
A mãe.


segunda-feira, 29 de abril de 2013

Pequenos Sóis da Manhã





















Encanta-me o dia que nasce, cercado de bocejos,
Silenciosas sonolências e sorrisos ainda adormecidos.
Pequenos olhos saudosos do aconchego da cama.
Silêncio de quem ainda não sabe no que pensar.
São pequenos sóis, nascendo todas as manhãs,
Indiferentes ao brilho que trazem pras nossas vidas.
Mal sabem o quanto precisamos do seu calor...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Fusão


Morri.
Assassinado?
Suicídio?
Quem foi?
Não há réus nessa cadeira.
Pouco importa!
Ressuscitei.
Renascido,
Sou mais espírito,
Sou mais carne.
A rigidez liquefeita
De me desmanchar em ti.
O doce toque de uma alma,
Habitante de um corpo fêmeo,
De doçura que brota abundante
De seu cálido âmago,
E que me alimenta, sem me saciar.
Corpos que unidos são taça
Onde as essências se misturam
O meu e o seu, diluídos, fundidos,
Nossos olhos fixos na mesma direção,
Em sentidos contrários.
Mostro-lhe minha alma, porque já enxergo a sua.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

As Vestes Descerradas

The Embrace - Egon Schiele


Saudades da sua nudez...
Tire essas vestes que impedem
Que minha tez toque a sua tez,
Que meu desejo encontre o caminho.
As lembranças descortinadas.
Os sentidos provocados
Na contemplação de minhas saudades.
O olhar se perde, deslizando como água,
Acompanhando suas formas
E evapora te seguindo aos céus.
O corpo vai ao chão.
A alma se desprende e flutua.
O coração em minhas mãos
Me ofereço.
Em pedaços,
Danço a melodia do suave toque,
Das mãos que rasgando fronteiras.
Descobrem o que sempre esteve ali,
Esquecido...
Encoberto pelas vestes da alma feminina
Tão tênue...
Opaca...
Intransponível aos de pouca fé...
Descerrei improváveis abotoaduras,
Desatei invisíveis nós.
E,
Esplêndida,
Reluzente,
Viva,
Finalmente lhe conheci.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Passos



De quantos passos eu fui capaz em todos esses anos?
Quantos pra frente, quantos pra trás?
Seriam passos o bastante para chegar até ela?
Ir até ela seriam passos pra frente?
Ou seriam passos pra trás?
Ficar onde estou seriam passos em que direção?
Ir e voltar com passos pra frente?
Ou voltar significa passos pra trás?
Meus passos pra frente me levaram pra longe
Agora são passos em direção ao meu passado
Pegadas que eu não deixei no seu caminho
Passos sem sair de onde estou.
E querendo chegar até ela.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

morte



Eugene Delacroix - Orphan at the graveyard


Da morte que me acompanha,
Desde a minha infância,
Trago em mim o regozijo da vida.
Para a morte que me espreita,
Levo a serenidade,
De quem sabe quão finito é corpo,
E quão incerta é a alma.
Não, não haverá volta desse caminho,
Velho amigo que me espera paciente.
Dessas pequenas incertezas, que me habitam,
Construa um futuro, com os pedaços do meu passado.
Nas minhas saudades desenhe um horizonte.
Que seja agora, o que sempre pareceu nunca.
Que seja para sempre, o que durou tão pouco.