sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Meus Dias

Meu lago é calmaria
Serena superfície de espelho
A refletir o céu, o azul, o áureo
Brilho do sol da manhã recém nascida
A brisa fresca da madrugada casta
Dança travessa por meus recantos

Meu lago é profundeza
Perturbadora escuridão de mausoléu
Acobertando bestas, negras, a púrpura carne pútrida de memórias assentadas
O monstro vestido em sua carapaça
De verdades cruas serpenteia
Por entre o limbo das minhas dores
Revirando as águas, poluindo de
Desesperança o meu entardecer

Escolhi ter o brilho dos anjos nos olhos, que encanta e enche de esperança corações
Escolhi o generoso caminho
Do semeador
Que atira em solo alheio os grãos da sua própria ceia
Escolho mirar o sol, quando é dia
Porque minhas noites são inevitáveis e solitárias

Mãos Estendidas

Quando a alma amanhece pesando
Os grilhões de ouro de um irremissível passado
Quando ao entardecer o corpo se arrasta em laborioso desalento
Quando a sombra do ser debruçado em lembranças
desaparece no equinócio de um outono
Não sonhado em ensolaradas primaveras infantes.
Um embornal de riquezas acumuladas, perdido no caminho.
Não há orgulho em seus pés descalços.
Não há prazer em seus lábios secos,
nem tão pouco beleza em seu dorso maltrapilho.
Não há tesouro em suas mãos vazias.
Estenda as mãos, tome sua moeda de prata.
Use-a!
Resgate a si mesmo...

domingo, 28 de dezembro de 2014

Página Escrita

















A página virada, manuseada, desenredada.
A página desvirada, revisitada, repetida.
Tremula-lhe a brisa dos humores inatos.
Arranha-lhe as garras do tigre vociferante.
Encarde-lhe, as entrelinhas, o solstício de ontem.

A página que nunca foi preâmbulo.
A página que se sonha epílogo.
A página que já foi escrita.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A Verdadeira Veste















Na ternura ausente de um quase ontem.
No vinco desfeito do lençol de outrem.
Na doçura, minha e sua, derretida, jorrada,
Grudada em mim, passeando em meus sentidos,
Rodopiando, pregando peças em meu tino.
Num calor presente de um quase agora.
Me desfaço e abandono o espaço.
Piso o chão num ato de bravura e pesar.
Visto-me de um eu distante, me disfarço, no enquanto.
Levo a doçura da verdadeira veste sob meus tecidos,
Um pedaço desse nosso cosmo dentro dos sapatos.
Rodopiantes desatinos perfumosos de um até logo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Necropsia



Lanço-me, o corpo, de encontro ao vento.
Atiro-me em vôo, sem peso é o pranto.
Da alma, da matéria, do peito, me arranco.
Mostro-me, cerne, do avesso, cru, cinzento.

Entrego-me em vísceras, coração purulento.
Rasgo-me as chagas, Rembrandt, carne em cancro.
No absurdo das entranhas, cubro-me no Teu manto.
Esvaio-me em sangue, lágrimas, um abandono lento.

Recolho no chão, pedaços de um ego dilacerado.
Fragmentos fétidos de um Narciso resignado.
Mosaico de vísceras púrpuras, à espera do chacal.

Desfigurado ser, humano, desnudo, animal.
Fui, em vida, poeta, pateta, por um dia, talvez, amado.
Regozijo-me enfim, deste, no suspiro final.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Carne e Caráter
















Escorrego no perigoso visgo dos desejos inadmitidos,
Por entre as fissuras imperceptíveis do caráter.
Digo não, na esperança de não ser ouvido em mim mesmo.
Toco a carne, minha, secretamente confabulando
Com a carne, tua, tão viva na ponta dos dedos, nossos.
Carne estremecida na lascívia de solitários momentos.
Prisioneiro  que sou de um intransigente caráter,
Déspota de meus atos, soberano em minhas decisões
Me tranco, sozinho, em meu quarto, escondido,
Abraçado à minha carne, tão, deliciosamente, fraca.

10/09/2014

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Cacos e Andorinhas


Não, eu não quero, eu espero.
Não, eu não caminho, eu me sento.
O querer e o caminhar podem, sim,
Me distanciar do que sou e eu sou o centro
Do que eu sinto e penso.
Apenas movo os olhos pro norte
Na incerteza de uma louca bússola
Na esperança de também ser norte
Entre tantos nortes que a ciência
Da vida insistiu em me convencer existir,
caminhei em todas as rotas apontadas.
Alfinetes fincados fundo no mapa dos meus dias.
Me sento e espero que a andorinha lançada,
Pedaço de alma, retorne, de todas as jornadas,
Com meus pedaços perfurados de alfinete
Remonto meu ser, nesse jardim que me circunda.
Pormenores cuidadosamente dispostos no chão.
Mosaico de cacos de cores embaçadas e formas familiares
Que pavimentam o caminho à frente.
Pés firmes nas lembranças e olhar de andorinha
Me desmancho e reinvento meu destino.
De pé...