terça-feira, 17 de abril de 2012

Espólio de Palavras


Palavras emprestadas desviadas roubadas
Inspiração furtiva procurada bandida
Idéias compartilhadas recicladas trocadas
espólio gramatical
Contravenção da alma
Mercado de pulgas do ser

Bramindo em Pincel


Toulouse-Lautrec
vida amores bordel
mulheres cheiro de mel
Van Gogh
delírios pena papel
Corvos girassóis e o céu
Claude Monet
Cavalete barba chapéu
Ninféias mulheres de véu
Gênios bramindo em pincel
Hóspedes, minh’alma é hotel

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Nova Friburgo 12 de Janeiro de 2011


E a chuva veio tirar a maquiagem da cidade,
afloraram as chagas de uma tragédia cotidiana.
Carne arrancada dos ossos pelas pedras
que rolaram de suas paisagens de cartão postal.
Vidas sepultadas sob a lama dos excluídos,
histórias arrastadas pela correnteza do abandono.
Terra mãe que, de tudo, sempre nos deu,
terra madrasta que de muitos tudo tirou.

domingo, 8 de abril de 2012

Algum Livro


Quem me dera
Que as respostas estivessem
Na última página deste livro,
a  verdade estivesse no quarto capítulo,
a contracapa contivesse a explicação pra tudo,
a capa fosse um espelho,
e eu não fosse o vilão da história.

Dormente


Meus livros adormecidos na estante
Meus poemas alimentam traças
Minha arquitetura alimenta sonhos
Minhas idéias derretem no uísque
Minhas roupas novas cheiram a cerveja de ontem
Meus olhos se refletem num espelho antigo

O chão da casa está empoeirado
Não posso andar descalço
As janelas estão embaçadas
Não consigo ver a paisagem
Preciso fazer a barba
Ela adorou meu corte de cabelo

Como é bela e brilhante a simplicidade!
Cinco gemas
Quatro claras em neve
Sal a gosto...

2007

Quero Mundo


Eu quero uma janela
que me permita ver o mundo
Mundo estático como um quadro,
pintado para preencher alguma parede vazia.

Eu quero uma porta
que me permita receber o mundo.
Mas que se feche pra mim,
toda vez que eu tente fugir.

Eu quero quatro paredes,
que me permitam esquecer o mundo.
E que o mundo se esqueça de mim.
Anônima alma de coração pequeno.

Eu quero uma cama,
que me permita sonhar o mundo.
Que me aqueça da frieza do inverno.
Que me proteja da aspereza do verão.

Eu quero uma televisão,
Que me permita inventar o mundo.
Janela das ilusões fantásticas.
Pintadas pra preencher os espaços da vida.

Eu quero um tapete,
que me permita ocultar as cinzas do mundo.
Sob as manchas de emoções passadas,
que desapareceram de minha memória.

Eu quero um abajur,
Que me permita enxergar um pedaço do mundo,
e que torne obscuro e sem valor,
tudo aquilo que não consigo ver.

Eu quero um relógio,
que me permita despertar o mundo.
Companheiro nas noites sem companhia.
Inquisidor me sentenciando a cada segundo.

Eu quero um mundo,
que me permita arrancar os quadros da parede,
e atira-los pela janela.
Um mundo sem portas, nem fechaduras trancadas.
Sem fugas.

Adeus mundo de quatro paredes.
Quero ouvi-lo coração anônimo.
Quero sonhar com você mundo terno.
Adeus inventores de espaços vazios.

sábado, 7 de abril de 2012

Sinfonia para o Corpo Desejado


Feche os olhos, o espetáculo vai começar
Coloque seu corpo em minhas mãos
a beleza de formas divinamente moldadas
Meu olhar te contempla e me emociono
Diante dos arrepios que percorrem sua pele,
Seu sabor que já me é íntimo, me faz salivar
Um pomar de frutas de perturbadores sabores
Sou invadido por seu cheiro de mulher
Que se confunde com inebriantes fragrâncias
Cuidadosamente escolhidas para me seduzir
Um jardim que explode em primavera
A música que nos hipnotizou e nos guiou
Silencia para que eu possa ouvir seus gemidos
Dançamos a música de nossos quadris
Cantarolamos a melodia de nossos fluidos
Ovacionados pela platéia de nossos grunhidos
O concerto de sensações que nos integra
Meu sexto sentido é sentir o que você sente

Estranha Canção


A vida silenciou todas as notas.
Tratou de apagar do papel os versos.
Fez-se silêncio em minha atmosfera.
Fez-se pedra e espinho o meu caminho.
Mas, meus lábios, desatentos às calamidades,
seguiram cantando uma canção estranha

Hoje, indultado pela vida,
livre de todas as penas,
notas e versos remidos,
não estranho mais a canção.

Receita de Bolo


Tarde chuvosa, amor ardente
Receita de bolo, receita a dois
Alimento de almas sonhadoras
Lábios, juras, carícias, suspiros...
Misture bem a quatro mãos
Deixe descansar bem abraçados
Unte a forma, lambuze os corpos
Recheie com doces palavras
Suculentas porções de gargalhadas
Cubra de beijos melados
Adocicados olhares reluzentes
Leve ao forno e esqueça as horas

Asas Invisíveis



Você passeia pelo quarto
em gestos de anjo
levitando.
Anjo sem asas.
As asas?
Ah, as asas...
Elas estão.
E só eu posso vê-las.
Só eu posso te ver voar.

14/07/1993
16/06/2009

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sonhos


Acordou naquela manhã
Com vontade de chorar.
A ilusão é sua irmã
Na sua ânsia louca de amar.
Acordou para mais um dia
Vagando entre a incerteza da razão,
e a realidade de uma vida vazia,
sem ter com que partilhar sua paixão.
Acordou com vontade de viver,
sem ter conhecido, da vida, o prazer,
apenas as carícias do vento
em seu rosto carcomido pelo tempo.
Acordou para contar às flores
Da sua vida sem amores,
da falta de amor pela vida,
da dor de viver sem ser querida.

Acordou com alguém que a chamava,
Alguém que ela, não sabia como, mas amava.
Mas ele não veio lhe trazer alegria,
sentiu que todos seus sonhos ele destruía.

Acordou naquela manhã
Com vontade de chorar,
Sem vontade nenhuma de amar,
Esperando a hora de se deitar
para nunca mais acordar.

1988

Cama de Bronze (inspirado em Lay, Lady, Lay)

A champanhe quente
na fria taça de cristal
transparente ao reflexo
da luz negra
no seu abajur colorido

Você não vê que o relógio parou?
As horas já não valem nada,
a vida já não tem mais cor.
As luzes já se apagaram.
Você faz parte de um buquê sem flores,
um coração sem dores.

a mulher quente
na fria cama de bronze
transparente ao reflexo
da luz vermelha
no abajur sem cor.

1987


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Amor e Arte


De seus poros brotam os versos
Que escorrem por nossos corpos.
Evaporados no calor da nossa paixão,
Sobem singrando suas curvas, buscando o céu.

Seus olhos refletem a palheta do artista.
Tintas que deslizam, colorindo nossas almas,
Misturadas no furor dos abraços.
Caleidoscópio de sensações que nos invade

Nossas bocas são pinceis ávidos,
Prontos a redescobrir nossos contornos.
Meus dedos remodelam sua intimidade,
Úmida matéria receptiva aos meus delírios

Espalho o prazer, em gemidos rimados, na sua tez,
Tatuando meus desejos indeléveis em sua nudez.
Nos movemos ritmados pela doce melodia da invasão
Deslizo no seu corpo como arco nas cordas do violino

Nos amamos em arte.
Imortalizamos o amor
Em sentimentos sublimes.
Somos eternos enquanto amamos.

Caçador de Palavras


Sou caçador de palavras
Tem dias que as caço com atiradeira
Tem dias que uso metralhadora
Na primavera as persigo como borboletas
No inverno uso enxada para encontrá-las
Feito tamanduá, minha língua já foi armadilha
Já pesquei palavra em meio a furacão
Já mergulhei com arpão pra caçar rima pra Netuno

Mesmo devidamente capturadas
Costumam escapar entre os dedos
Deixando a caneta suspensa no ar
Cheia da tinta e vazia de inspiração.

Querer


Quero sentir o que você sente
Quero um futuro aqui presente
Quero inventar o nosso passado
Quero estar do teu lado
Quero sentir o teu corpo
Quero beber do teu copo
Quero dançar teus gemidos
Quero lamber teu ouvido
Quero acender tua chama
Quero quebrar tua cama
Quero te beijar de manhã
Quero te querer amanhã

10/01/1994

Colibri

A manhã bate às portas da cidade,
a noite deixa como lembrança
a ressaca, uma garrafa vazia,
e um corpo de mulher, vazio,
deitada em minha cama, despetalada...
Flor violentada, sem violência.
Algo de meu se perdeu nessa noite,
não era apenas isso que eu queria...

30/09/1989

Apenas Engano


Na televisão um filme desinteressante
No copo um gole de uísque desinteressante
Na mente um gole de lembrança enfumaçada
No cinzeiro nada, eu não fumo
A pizza semi-pronta me espera no forno
A mulher semi-nua me espera na cama
A torneira goteja esquecida no banheiro
O relógio, na parede, me lembra das horas
A janela aberta me mostra a cidade
A porta fechada me esconde da verdade
De algum apartamento cheirando a mofo,
Alguém se atreve a me ligar:
Apenas engano...

O Rock Está Morto


O Rock está morto, insisto em acender velas.
O fantasma gordo de Elvis.
Jagger, vampiro, sugando vida das platéias
Dinossauros renascem nas bilheterias
Príncipe das trevas, palhaço da TV

Felizes os que morreram de overdose.
Heróis na Terra do Nunca do Rock.
Lápides que não criam limbo.
Jim,
Janis e
Jimmy Hendrix,
Amém.

Oi


Foi apenas o que ela disse
Como quem rasga as páginas de um livro
Foi uma ponta de esperança
para mim que tento resgatar uma história
foi como tudo começou, certo dia
com olhares de quem já sabia o enredo
Saudação que ecoa derradeira
Entre os passos de dois indivíduos
Cujos caminhos inevitavelmente se afastam

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Efêmero


Essa música me faz tão bem,
Que perdôo meus inimigos por quase um segundo.
O piano me pega e me leva pelo mundo.
Suas notas são asas nessa viagem.
Quem é você pianista, que me ludibria com seu talento?
Onde se esconde a razão entre essas notas?
Meus ouvidos são mensageiros do improvável.
O que há de provável que não tenha sido desmentido?
O que há de errado em ser desmentido?
Por que desmentir a música?
Pra que provar a arte?
Por que duvidar da nossa efemeridade?

terça-feira, 3 de abril de 2012

Inspiração Pequenina

Perdi uma inspiração, alguém viu por aí? Bem novinha, mal se aguenta em pé sozinha, mas com um brilho único nos olhos.


Livre Palavra


Faço minhas as palavras soltas no ar,
as capturo 
e depois liberto, 
em outro tempo, 
em outro espaço, 
em outro contexto, 
em novas companhias.


Papel Moeda


Que falta faz o papel para quem escreve! Companheiro, inimigo, cúmplice, confidente, recebe rabiscos, palavras suaves e textos que deixam marcas profundas. Rasgado e amassado é sentenciado pela falta de inspiração, interrogado por suas linhas que insistem em ficar em branco, amigo fiel absorve, silencioso, as lágrimas que às vezes costumam cair, resignado, escuta desabafos, antepara murros e tapas. Sorriso de musa o faz mais branco, tornando as palavras, nele escritas, mais vivas e significativas. A ignorância o encarde, é mofo que o corrói feito câncer.
Minhas folhas de papel eu guardo como tesouro em cofre que só eu sei o segredo, volta e meia emito cópias feito Casa da Moeda e saio para gastar com os amigos em festas de alma, em banquetes de palavras, em orgias rimadas. Volto sem minhas cédulas de pouco valor, volto com o coração, que mais parece baú, carregado em ouro doado por quem abriu seus cofres para mim também. 

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Réu

Eu não nasci ontem,
tenho uma história,
tenho calos nas mãos
e rugas em meu rosto,
e um caderno de poemas
que me remetem ao passado,
tenho LP's arranhados pelo uso,
e fotos desbotadas pelo tempo.
Certidões de nascimento e de óbito
dividem espaço em minha gaveta,
jardim de flores e espinhos.
Me acusem por ter um passado
e me absolvam por não ter futuro.


domingo, 1 de abril de 2012

Banquete


Das esvoaçantes receitas rasgadas
Dos vinhos em taças hoje vazias
De talheres lambuzados de lembranças
Das sobras de palavras pútridas
Em pratos rachados pelo rancor
Dos guardanapos sujos pela bílis
de estômagos regurgitantes
Da mesa esquecida e posta
Para um banquete que não teve fim

Chave





















Meus dedos passeiam no escuro de sua ausência,
chegam a deslizar na vivaz lembrança
de sua pele a tocar-me
Que pude eu guardar
nessas pequenas caixinhas amontoadas
que chamo de memórias?
não sei da chave que as abre,
só sei da saudade que ficou do lado de fora.

Leis


Se são leis
Podem ser burladas
Podem ser revistas e revogadas
Mesmo que seja a lei da gravidade
Irrevogável é o tombo