domingo, 28 de dezembro de 2014

Página Escrita

















A página virada, manuseada, desenredada.
A página desvirada, revisitada, repetida.
Tremula-lhe a brisa dos humores inatos.
Arranha-lhe as garras do tigre vociferante.
Encarde-lhe, as entrelinhas, o solstício de ontem.

A página que nunca foi preâmbulo.
A página que se sonha epílogo.
A página que já foi escrita.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A Verdadeira Veste















Na ternura ausente de um quase ontem.
No vinco desfeito do lençol de outrem.
Na doçura, minha e sua, derretida, jorrada,
Grudada em mim, passeando em meus sentidos,
Rodopiando, pregando peças em meu tino.
Num calor presente de um quase agora.
Me desfaço e abandono o espaço.
Piso o chão num ato de bravura e pesar.
Visto-me de um eu distante, me disfarço, no enquanto.
Levo a doçura da verdadeira veste sob meus tecidos,
Um pedaço desse nosso cosmo dentro dos sapatos.
Rodopiantes desatinos perfumosos de um até logo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Necropsia



Lanço-me, o corpo, de encontro ao vento.
Atiro-me em vôo, sem peso é o pranto.
Da alma, da matéria, do peito, me arranco.
Mostro-me, cerne, do avesso, cru, cinzento.

Entrego-me em vísceras, coração purulento.
Rasgo-me as chagas, Rembrandt, carne em cancro.
No absurdo das entranhas, cubro-me no Teu manto.
Esvaio-me em sangue, lágrimas, um abandono lento.

Recolho no chão, pedaços de um ego dilacerado.
Fragmentos fétidos de um Narciso resignado.
Mosaico de vísceras púrpuras, à espera do chacal.

Desfigurado ser, humano, desnudo, animal.
Fui, em vida, poeta, pateta, por um dia, talvez, amado.
Regozijo-me enfim, deste, no suspiro final.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Carne e Caráter
















Escorrego no perigoso visgo dos desejos inadmitidos,
Por entre as fissuras imperceptíveis do caráter.
Digo não, na esperança de não ser ouvido em mim mesmo.
Toco a carne, minha, secretamente confabulando
Com a carne, tua, tão viva na ponta dos dedos, nossos.
Carne estremecida na lascívia de solitários momentos.
Prisioneiro  que sou de um intransigente caráter,
Déspota de meus atos, soberano em minhas decisões
Me tranco, sozinho, em meu quarto, escondido,
Abraçado à minha carne, tão, deliciosamente, fraca.

10/09/2014

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Cacos e Andorinhas


Não, eu não quero, eu espero.
Não, eu não caminho, eu me sento.
O querer e o caminhar podem, sim,
Me distanciar do que sou e eu sou o centro
Do que eu sinto e penso.
Apenas movo os olhos pro norte
Na incerteza de uma louca bússola
Na esperança de também ser norte
Entre tantos nortes que a ciência
Da vida insistiu em me convencer existir,
caminhei em todas as rotas apontadas.
Alfinetes fincados fundo no mapa dos meus dias.
Me sento e espero que a andorinha lançada,
Pedaço de alma, retorne, de todas as jornadas,
Com meus pedaços perfurados de alfinete
Remonto meu ser, nesse jardim que me circunda.
Pormenores cuidadosamente dispostos no chão.
Mosaico de cacos de cores embaçadas e formas familiares
Que pavimentam o caminho à frente.
Pés firmes nas lembranças e olhar de andorinha
Me desmancho e reinvento meu destino.
De pé...

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Peso Próprio









A poesia das linhas
Ganhando formas,
Criando vazios.
Dimensões que surgem
No vácuo das distâncias humanas,
Crescendo sobre nossas cabeças.

Formidável arte,
Inventada por inspiradas mãos humanas.
Pobre homem,
Prisioneiro de sua própria excelência.

O céu é o definitivo teto
De nossa finitude orgânica.
O chão como única verdade.

Ó Deus,
Se somos sua mais perfeita obra,
Por que não nos deu asas?!


sábado, 28 de junho de 2014

O Escuro Quarto

Dos meus sonhos sou ator e platéia,
Um diretor distraído, um protagonista traído.
Sou roteirista tentando dar brilho noturno
A dias de pouco sol, sombrias linhas sendo escritas a dedo
Na areia infértil que cobre as rochas da história do mundo,
E que o vento dos dias cuida de apagar num único golpe.
No teatro noturno dos sonhos a única certeza
É que as luzes se acenderão, irrompendo em pleno epílogo.

Olhos abertos e fugidios buscam a saída ,
Dou as costas a mim mesmo e minhas estórias reticentes.
Dedos ásperos de tanto desenhar na areia,
Sigo a vida, indiferente...

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Ponteiros















O menino me foge,
Na inquietude veloz da manhã.
Adulto, eu me prostro,
Na prudente hora de uma tarde lenta.
O velho se esconde
Na assombrada surdina de um entardecer paralítico.

Eu serei todas as horas, de todos os dias.
Eu serei todos personagens dessa estória.
Serei encontros e desencontros
Dos ponteiros certeiros do relógio.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Gravidade


Prisioneiro, imantado, gravitante, atraído...
Traído em meu desejo de vôo.
Me permito furtivos saltos sem horizonte.
E no meu peso novamente me estatelo.
Grilhões acorrentam meus sonhos,
Nos arredores de Pólos, Equador e Trópicos
Um fardo de laboriosa sina,
Minha cruz, Via Crucis.
Carrego ou sou carregado?
Conduzo ou sou conduzido?
Eu estou na carne e sou carne.
Sou indivíduo, sou primo e sou infinito.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Acordar























Acordar cercado por esse amor
Altruísta com o qual o planeta,
Generoso, nos alimenta.
O terno sol, o doce fruto, a límpida água,
O imperceptível oxigênio. Alimento processado
E transformado, pronto para seguir, compartilhado,
Sem esperar nada em troca,
Assim como o recebemos, dia após dia,
Por toda uma vida. Se encher de amor
E explodir contagiando, contaminando, tocando almas.
amor não é meu, nem seu, ele passa, e volta.

"Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar de pão
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
Roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra, a propícia estação
E fecundar o chão"

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Fugaz













Uma flor me beija.
Por mais breve que seja.
Uma amante.
Aflito e apressado,
Fui amado,
Quero aquele instante.
Que me cobre como manto
Virtuoso, fugaz...
Quão e tanto,
Não me ame mais!

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Trago Flores

















Trago flores, trago cores.
Trago uma janela aberta pro amor.
Olhe e se enxergue!
É você entre girassóis, lírios e sempre-vivas.
É você brilhando, disseminando matizes como elas.
É você inebriante, confundindo-se ao perfume delas.
Enche-me o desejo de segurar suavemente sua mão.
O ar repleto de sol enaltecendo sua tez morena.
O vento acariciando suas curvas de mulher.
Nos lábios o sabor de um beijo apaixonado,
Que percorre seus sentidos, invade sua libido.

E sua alma grita,
Seu coração acelera,
Seu corpo urge.

Você é inteira uma vontade de viver,
Que ultrapassa as fronteiras da carne,
Que se expande numa luz divina.
Seu êxtase me alcança,
Domina o meu corpo,
Invade meu peito,
Apossa-se da minha alma,
E minha alma grita, abraçada à sua.

30/01/2013

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O Mar e A Montanha


Montanhas.
Oceanos.
As curvas.
A linha reta.
Os pés no chão.
O braço em vão.
Incerteza cristalina.
Inevitável sal.
Nos olhos.
Nos lábios.
O desmoronamento.
O naufrágio.

Um oceano sedento, insaciável.
Gigantesco em sua salinidade, intragável.
Sorvendo a doce água,
No frescor dos lábios ribeirões.
Insinuante Iara que se entrega
Em sentimentos curvilíneos.

A menor distância entre dois portos.
A vastidão plana do oceano.
A ausência que habita o tudo.
Eu sou o monstro mitológico,
Que nunca deixou seus sonhos
Sou o medo que alimenta as velas,
O porto que vai chegar.

Se perca na escalada.
Escorra sinuosa em cordilheiras.
Horizonte mais alto que os olhos.
Brilho de sol invadindo sombras.
Sou a árvore que guarda a nascente.
Sou a nascente que alimenta o mar.
Lentamente.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Hoje (de algum lugar nos anos 90)

Hoje
Não quero ser amigo,
Nem quero ser inimigo.
Não quero ser namorado,
Nem quero ser infiel.
Nem quero ser amado.
Não quero ser irmão,
Não quero ser filho,
Nem quero ser pai.

Quero ser apenas um vazio,
Inatingível.
Uma estrela de pouco brilho,
Despercebida,
Longínqua,
Sozinha no tempo e espaço.
Num lugar onde nem mesmo a vida me encontre.

Pois eu não quero viver,
Nem tão pouco morrer.
Pois não vejo a diferença,
Eu sou um vazio inatingível.

domingo, 5 de janeiro de 2014

A Ilha e Os Desertos

















Teu corpo é uma ilha
Cercado por todos os lados
Pelos meus desertos.
Sou uma criatura sedenta,
Querendo sorver-te.

Tenho sede na boca.
Tenho sede nos olhos.
Tenho sede na ponta dos dedos.
Tenho sede nos ouvidos e narinas.

Inunda meu peito e minha alma,
Me afoga os sentidos e
Mata minha sede por agora!

Vem...
Me inunda...
Me mata...
A sede...